
OS PAIS, os avós, eram músicos. Mal nasceu, Tito Paris, penúltimo de nove irmãos (também eles quase todos músicos), começou a respirar música ao mesmo tempo que oxigénio e aos sete anos já tocava guitarra «como um grande». Hoje, se o impedissem de tocar e cantar, possivelmente morria com falta de ar. Tito vive em Lisboa desde 1982. Como compositor trabalhou nomeadamente para Bana, Luís Morais e Cesária Évora (foi ele quem fez os arranjos do primeiro disco da cantora).
Tem trabalhado com inúmeros músicos portugueses (Vitorino, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho e tantos outros) e a sua carreira já o levou a participar em alguns dos principais festivais da Europa e dos Estados Unidos. (...) compôs e gravou a banda sonora do filme O Testamento do Senhor Nepumoceno, de Francisco Manso.
O (...)trabalho discográfico, Ao Vivo no B. Leza (...) é uma festa, onde mornas, funanás e coladeras se abrem a influências jazz, rock, salsa e flamenco, mantendo todo o sabor da música mais genuinamente crioula. Ariel de Bigault, autora de uma célebre antologia da música cabo-verdiana, afirmou recentemente: «O Tito Paris é o grande acontecimento da música cabo-verdiana, porque faz a ponte entre tudo. Muitas coisas estão nas mãos dele, neste momento.»
O que é que pensa o próprio? Fomos sabê-lo.
EXPRESSO - Veio para Portugal em 1982 integrado no projecto Voz de Cabo Verde. É capaz de me falar desse tempo?
TITO PARIS - Era bem diferente do que é hoje. De dia para dia, nós temos ideias novas e a música evoluiu imenso desde então. Não é que tocássemos mal na altura, mas a época impunha um determinado som. A Voz de Cabo Verde tocava tudo: soul music, reggae, até fado! Na altura tinha que ser assim.
EXP. - Aos sete anos já o Tito tocava guitarra com músicos como Luís Morais, e aos 12 formou o seu primeiro grupo, não foi?
T.P. - Foi. Eu quase que não brinquei como miúdo. A música não me deixou. E por vezes tenho saudades das brincadeiras que não fiz. Ainda por cima, os meus pais separaram-se e, dadas as dificuldades, tinha que ser eu, como mais pequenino, a tocar, para ser um chamariz.
EXP. - Em termos musicais, para além da própria família, quem foram as pessoas determinantes na sua formação?
T.P. - O Paulino Vieira, antes de mais nada. Ele o o Dany Silva foram os grandes responsáveis pela minha carreira.
EXP. - Eu estava a pensar antes disso, lá em Cabo verde, quando ainda era um miúdo.
T.P. - O Luís Morais, o Valdemar Lopes da Silva, o Chico Serra... houve mais. Aos 10, 11 anos, já eu tocava nos bares e foi aí que eu aprendi, com este e com aquele. Com o Jack Monteiro, também, que é um grande cantor que vem cá gravar um disco agora, que eu vou produzir. Com muito prazer, aliás. Pensando bem, a minha adolescência foi bonita, porque eu me senti muito homem muito cedo.
EXP. - Com muitas namoradas...
T.P. - Namorei muito pouco. Estava demasiado preocupado com a família. Era incapaz, por exemplo, de deixar de ensaiar para andar com a namorada. Porque tinha uma namorada, mas só uma. É a mãe do meu filho mais velho.
EXP. - Quando é que começou a cantar? Ou melhor, quando é que tomou consciência das potencialidades da sua voz?
T.P. - No princípio, não me passava pela cabeça cantar. Uma vez na Holanda, creio que em 1986, estávamos a actuar num bar muito bonito em Amesterdão, que pertence a um grande amigo nosso, o Irineu, quando o Paulino se virou para mim e disse «Canta! Canta!» Cantei umas estrofes e desatei a rir. O Paulino ficou um pouco zangado comigo e eu disse: «Estou-me a rir porque a seguir vais pôr o teu irmão a cantar também.» A partir daí, o Paulino começou a puxar por mim, para eu cantar de vez em quando. Mais tarde, quando deixei de trabalhar com a Voz de Cabo Verde e fui trabalhar com o Dany, ele pregava-me partidas doutras formas, obrigando-me a cantar também. E assim fui ganhando gosto, até fazer as primeiras partes dos concertos do Dany. Isto apesar de, um dia, um espectador que eu conhecia me ter dito: «Tu és um grande guitarrista, também tocas bem piano, mas não cantes, pá!»
EXP. - O Tito é também um compositor solicitado...
T.P. - Eu componho quando me encontro a mim mesmo. Muitas vezes, nem preciso de ter o instrumento comigo. Para isso, adoro estar sozinho, com um cigarro e um «drink». Pode ser num sítio desconhecido. Tenho um gravadorzinho e, quando encontro uma melodia, gravo. Mas não faço música por fazer, apenas quando é necessário. Não sou como aquelas pessoas que, no Verão, vão para a praia mesmo sem ter vontade.
EXP. - A música vem, pois, primeiro do que a letra...
T.P. - Sou muito sensível ao ambiente, à decoração, aos sons à minha volta. Componho a melodia e só depois começo a pensar nos versos. Não escrevo com caneta, mas cantando, imaginando os instrumentos.
EXP. - Já tem ideias para o seu próximo trabalho?
T.P. - Estou muito ansioso por trabalhar. O meu moral está muito bom e tenho um excelente ambiente de trabalho, mas o meu próximo disco ainda está no segredo. Tão no segredo que a minha própria alma ainda não me diz nada.
EXP. - Sabemos que o Tito gosta mais do palco do que do trabalho em estúdio.
T.P. - Adoro palco. Eu chamo ao palco «casa de família». Vejo uma sala de espectáculo um pouco como uma casa onde se acolhem os sem-abrigo. Onde as pessoas vão à procura do que temos para lhes dar. E não me refiro apenas à música; em Cabo Verde, fiz teatro durante muitos anos e também adoro teatro.
EXP. - Fez teatro como músico ou também como actor?
T.P. - Como actor. Lembro-me que a última peça em que entrei, em 78 ou 79, já não me lembro, recebi 300 escudos.
EXP. - Eram peças de autores locais?
T.P. - Sim. Havia lá um senhor, Ribeiro Gonçalves, conhecido como Tio Lói, que era quem escrevia muitas das peças e com quem aprendi muito. Fiz também algumas peças escritas por mim e por malta da minha idade.
EXP. - E tem essas coisas guardadas?
T.P. - Sim, algumas. Há, por exemplo, a história de um violinista, que nunca acabei, mas na qual ainda penso de vez em quando. E, como gosto muito de escrever, tenho também o projecto para um livro de contos baseado em histórias que me aconteceram realmente, ao longo das minhas andanças.
EXP. - Quando gravou os concertos do B. Leza já estava a pensar numa edição em disco?
T.P. - Sim. Escolhi o B. Leza, apesar de não ter grandes condições para gravar um disco ao vivo, por várias razões. Não sei se sabe, mas fui eu quem deu o nome àquele espaço. Apesar de não o ter conhecido, o B. Leza para mim é mais do que um músico, um santo. Este disco é também uma homenagem a esse grande compositor.
EXP. - Há quem diga que o verdadeiro Tito Paris é para ser apreciado ao vivo, visto que o estúdio não consegue dar a verdadeira dimensão da sua música.
T.P. - Eu acredito, sim. Como já disse, sinto-me em casa em cima de um palco, é lá que me sinto melhor. Em casa tenho uma família, mas no palco tenho outra. E neste disco estou rodeado de amigos, que são também excelentes músicos: o Rui Veloso, o Pedro Jóia, o Boy Gé Mendes e o Dany Silva. Até por isso ele é tão importante para mim.
EXP. - Se pudesse escolher quem quer que fosse para participar num espectáculo seu, quem convidaria?
T.P. - Tanta gente. Gostaria, por exemplo, de ouvir o Carlos do Carmo a cantar uma morna.
EXP. - Nunca o desafiou para isso?
T.P. - Não, mas nunca é tarde. Aliás, o Carlos do Carmo é meu amigo. Mas em Portugal há muitos bons cantores. Este país é já uma grande potência musical e poética e isso está a ser demonstrado lá fora, através de gente como o Pedro Abrunhosa. Também gostaria de trabalhar um dia com os GNR.
EXP. - Acredita portanto nas potencialidades da música portuguesa?
T.P. - Acredito profundamente. Em Cabo Verde, as pessoas sabem de cor as letras das canções do Luís Represas, do Rui Veloso... E os jovens pegam na guitarra e começam a cantar as canções do Rio Grande. Nós falamos todos português, em Angola, Moçambique, Guiné... Quando estiver tudo em paz, já não vamos vender dez ou vinte mil discos, mas um milhão. Temos que acreditar e trabalhar para isso, desde já.
EXP. - Mas cada país conservando aquilo que tem de mais genuíno e profundo?
T.P. - A raiz é intocável. O cabo-verdiano é o único povo no mundo que pode nascer na China, passarem várias gerações e continuar a falar o crioulo. Veja o caso do Horace Silver, fala inglês mas, de vez em quando, mete o crioulo pelo meio.
EXP. - Está também optimista em relação ao futuro da música cabo-verdiana?
T.P. - Em Cabo Verde precisamos de trabalhar mais. Com mais seriedade e convicção. E estar preparados psicologicamente para aceitar críticas, construtivas ou destrutivas. Cá em Portugal nós temos uma série de música africana que não nos vai levar a lado nenhum. Nós, africanos, somos doces a escrever e quando vejo para aí africanos a escrever «bunda» e coisas assim, não gosto. Basta aquela guerra que temos em África. Somos um país e um continente muito ricos, temos instrumentos feitos pelas próprias mãos com um som que nenhuma máquina consegue imitar. Mas também temos miúdos, filhos de emigrantes, na Holanda e noutros países, a fazer música com computadores, onde não cheira a África. Os discos que fazem são iguais a tantos outros. A música pode e deve evoluir, mas também tem de respirar. Por exemplo, eu tenho um grande sonho, e não hei-de morrer sem o realizar, que é o de fazer morna sinfónica.
EXP. - E que outros sonhos tem por realizar?
T.P. - Acabar na minha terra.
(in Expresso 1998)